Carta de uma mãe feminista para seu filho

Por @nataliaitabayana

Meu filho,

um dia, bem antes de você nascer, perguntei pra sua avó se ela já sabia se eu era menino ou menina enquanto ainda estava na barriga dela. Fiquei surpresa quando ela me respondeu que não quis saber, que preferiu esperar a surpresa na hora do nascimento, e eu respondi que não conseguiria esperar tanto tempo, que iria querer saber logo. Mas não foi isso que aconteceu, na verdade. Fiz exatamente como sua avó, e quando me decidi a seguir os passos dela, entendi parte dos motivos, e entendi muito sobre quem sou e a forma como ela me educou, e pretendo seguir os passos dela novamente, porque ela sempre fez questão de dizer que não tinha preferência, fosse menino ou menina, o amor seria o mesmo. E isso pra mim ficou muito claro no momento que descobri que carregava uma vida no meu ventre.

Sempre que me questionavam sobre o fato de você, ainda na minha barriga, ser menino ou menina, eu respondia que só saberia na hora do seu nascimento, e invariavelmente a conversa continuava sobre as dificuldades que eu encontraria em encontrar roupas pra você, como iria decorar seu quarto, que tipo de presente as pessoas iriam me dar durante a gravidez. Eu agradecia a preocupação, dizia que o que mais me importava, naquele momento, era que você tivesse saúde, que se desenvolvesse bem, e eu daria um jeito no resto. Seu quarto, que era todo bege, ganhou uns pontos de cor : duas almofadas, uma vermelha e outra azul (a terceira ainda está embalada, esperando que eu tricote sua capa que será amarela – espero fazê-lo antes dos seus dezoito anos). Três quadros com fotos de carrosséis. Pronto, essa foi a decoração que preparei pra sua chegada. Suas roupas também não me ofereceram dificuldade: um monte de macacão listrado, de vermelho, de azul, de preto, de verde, amarelo, macacão rosa, com estrela, com bolinha, com bicho. Nem foi tão difícil como disseram que seria.

E quando você nasceu, pelas minhas mãos e as do seu pai, te colocamos no meu colo, não nos preocupamos em olhar se você era menino ou menina: te olhei nos olhos, te dei boas vindas, e fui ver tuas mãozinhas. E a parteira, meio sem jeito de interromper esse encontro, perguntou : E então? Menino ou menina?

Saí daquele transe e descobri que trouxe ao mundo um menino. E como isso influenciaria a forma como iríamos criar você, num mundo onde existe uma preocupação em em classificar como coisa de menino e coisa de menina?

Me dei conta de que as preocupações acerca do enxoval, da decoração do seu quarto e de itens de puericultura de nada importavam. O que importava mesmo, o que realmente importa, é a maneira como vamos educar você, num mundo desigual, machista, que exclui o diferente.

Você nasceu sob um lema muito bonito: Igualdade, Fraternidade, Liberdade. Espero conseguir transmitir pra você a importância desses valores, e espero que eles sejam constante na sua vida e na sua forma de se relacionar com as pessoas. Você nasceu numa época em que o acesso à informação é algo valioso, em que dispomos de várias plataformas onde podemos expor nossas opiniões, e nem sempre essas opiniões são pautadas por princípios éticos e morais ou são orientadas no sentido de contribuir para que a vida em sociedade seja pacífica, harmoniosa e respeitosa. Por meio dessas plataformas, pessoas outrora sem voz encontraram uma forma de se comunicar, de compartilhar os abusos sofridos, de buscar formas de sensibilizar outras pessoas, de ajudar.

Eu espero, meu filho, que eu consiga passar pra você a mensagem de que meninos e meninas estão no mesmo patamar, que ambos podem brincar do que quiserem, podem sonhar em ser o que quiserem, que menino pode chorar, e que menina não é frágil. O choro, meu filho, é a nossa primeira forma de comunicação, a única da qual dispomos quando ainda bebês, e todos choramos, de tristeza, mas também de alegria. É normal chorar. Chore. E frágeis são as flores, que podem se danificar se maltratadas. Meninas são fortes, meu filho. E inteligentes, e merecem respeito. E precisamos do feminismo pra mostrar que ser menina não nos faz menos capazes ou menos inteligentes do que se fôssemos menino. Precisamos ter as mesmas oportunidades.

Hoje, com tanta informação a que temos acesso, com tantos debates, infelizmente vemos situações tristes acontecerem, disfarçadas de brincadeira. Mas quando o que é tratado como brincadeira desrespeita o outro, quando só um dos lados acha graça da piada, chamamos de desrespeito, discriminação, às vezes tem coisas que são ditas como brincadeira, mas que na verdade são crime.

Respeite, meu filho. Conheça seus limites, e os respeite. E respeite os limites dos outros. Respeito é a base de tudo. E é algo que está em falta nesses dias.

Com amor,

Sua mãe

Anúncios

Defina sua personalidade pelo nome da sua…

Por Chris Menezes e Mirella Camargo

Este poderia ser mais um daqueles inúteis testes de personalidade que brotam diariamente na timeline do Facebook. Em pleno século…mas em qual século estamos mesmo? Deixa pra lá, pois não vai fazer a menor diferença. O que quero dizer é que nos dias de hoje ainda é possível esbarrar em comentários que poderiam estar saindo de um manuscrito de séculos antes de Cristo.

Nos últimos dias foi noticiado que um ator da Rede Globo está sendo acusado de assédio sexual por uma funcionária da emissora. Ao relatar os abusos a mulher em dado momento diz que ele colocou a mão em sua “buceta”. Veja parte do relato:

“Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo. Elas? Elas, que poderiam ser eu, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade”.

Eis que em um compartilhamento da notícia em uma rede social, várias mulheres fazem comentários dizendo que por ter usado o nome “buceta” para a genitália, coisa boa ela não seria, que estaria sendo basta e desnecessária. Mas oi??? Como assim, queridinha? Teria que dizer: “ele colocou a mão na minha florzinha?”

O que define os fatos é o nome que se dá a uma parte do corpo? Ou melhor, por que se tira o foco de uma violência da qual somos TODAS vítimas e passa a se questionar o nome que damos ao nosso órgão sexual? Por que esse detalhe passa a ser o tema do debate entre as mulheres e não a violência em si? Justo entre mulheres!!!! Até entendemos o incômodo em ler um palavrão num texto, mas é um tanto quanto cruel e infantil determinar o que é certo ser dito num caso desses, não acham?

Tá faltando cumplicidade e sororidade, como bem apontou a moça do episódio global. Mas tá faltando também muito bom senso e empatia, aquele sentimento lindo que faz com que a  gente se coloque no lugar da outra e pergunte “e se fosse com a minha buceta”?

Caçadora de Leões

Por Chris Menezes

Foto: Florida Memory State Library
Foto: Florida Memory State Library

De todos os insultos que ouvi ao longo da minha vida – e não foram poucos – esse certamente foi o que calou mais fundo. Sim, já escutei muito absurdo nessas minhas 47 primaveras por parte de colegas de trabalho e machinhos “empoderados”.  Pois é. Muito fácil pegar a menina e sair contando pra todo mundo. Mais fácil ainda, não pegar – porque ela não quis – e resolver inventar apelidos engraçadinhos para, claro, desqualificá-la.

É, minha gente, isso foi a história da minha vida durante um bom tempo. Tempo que eu era gostosinha e bem fogosa, tinha sede e pressa de curtir a vida. Saí com quase todo mundo que eu quis e estava nem aí pro que fulano ou beltrano iam dizer. Até a hora em que chegava ao meu ouvido.

Doía? Sim, com certeza. Mas eu não podia evitar. E, muito menos, ia deixar de viver minha vida.

E o caçadora de leões? De onde surgiu?

Sou publicitária e tive casos e ficadas com meninos do mercado e cheguei a casar com um redator. Por acaso, alguns desses caras conquistaram Leões de Cannes (considerados o maior prêmio da propaganda mundial). Só que, minhas caras, eu não fiquei com nenhum deles por conta de uma estatueta nem tava interessada em dar um golpe do Leão em ninguém (e se estivesse, ninguém tinha nada a ver com isso, by the way). Fiquei porque eram gostosos, bonitos, interessantes ou tão safados quanto eu. Só que um cabloco todo trabalhado no recalque resolveu me dar esse apelido tão querido e meigo. Aparentemente, o moço estava com tempo livre suficiente para fazer uma timeline da minha vida sexual.

Como é o nome disso? Misoginia? Frustração? Recalque?

Brochismo (acabei de inventar a palavra e achei perfeita pra situação)? A mim, não importam as motivações de meia dúzia de idiotas. O que me importa e choca é que as pessoas percam tempo em tomar conta da perereca alheia.

Então, cês me desculpem a ironia, mas que pussy poderosa essa minha, hein?!

Mais do que um desabafo pessoal sobre um tempo que há muito ficou pra trás, esse post é uma reflexão sobre essa mania masculina de rotular e diminuir o sexo oposto, transformando tudo numa piada sem graça em looping. Ora bolas, eu fiquei com muitos publicitários por ser uma delas. Frequentávamos as mesmas festas, andávamos com as mesmas pessoas, os chopps e churrascos eram extensão natural da jornada de trabalho. Normal, as pessoas se azararem, se encantarem e se pegarem. Mas por que isso me reduz a um apelido depreciativo?

Cadê o apelido daquele menino que enche a cara e sai dando em cima de cada menina até lograr êxito em algum momento? Por que a ele não é dispensada a mesma ironia maldosa? E mais: quem foi que determinou a quantidade aceitável de peguetes para não ser taxada de galinha, piranha ou caçadora de xyz?

Eu passei por tudo isso, digeri, superei e, hoje, dou risada. Mas sei que, nesse exato momento, tem uma menina chorando escondido por estar sofrendo com esse tipo de “gracinha”.

Até quando? Pelo amor de Deus, já passou da hora de respeitarmos verdadeiramente as escolhas individuais alheias, sem hipocrisia e, principalmente, sem julgamentos bestas.

A maquiagem e a escravidão

Por Mirella Camargo

Foto: Alicia Keys, ensaio para a revista Fault (Foto: Zoltan Tombor)
Foto: Alicia Keys, ensaio para a revista Fault (Foto: Zoltan Tombor)

Na última semana a nossa colaboradora Alline da Costa colocou a cara lavada no Snapchat para falar sobre a imposição do uso da maquiagem. O assunto rendeu. Muitas seguidoras entraram em contato conosco e resolvemos falar um pouco mais sobre o assunto que pode ser um inferno para uns e um paraíso para outros.

Recentemente a cantora Alicia Keys foi a um evento sem maquiagem e deu no que falar, inclusive aqui no Coletivo. Nosso time é a favor da liberdade, do direito de sair na rua com a cara que você nasceu sem precisar usar mil artifícios para esconder o que deveria ser chamado de beleza natural. A questão vai muito além do uso da maquiagem e engloba todas as pressões que sofremos em relação ao nosso corpo, nossa linguagem e nossa aparência. Aprendemos e somos expostas a uma mídia que diz o tempo todo que para a mulher ser bonita e desejada tem que ser magra, usar maquiagem, roupas caras, não pode falar palavrão, entre outras coisas.

Nós admiramos mulheres que se aceitam, que usam maquiagem quando querem e se sentem bem com isso sem se tornarem escravas deste artifício. Mulheres que não precisam ter o corpo da blogueira fitness para se acharem lindas e interessantes. Mulheres reais, que batalham, conquistam o seu espaço e servem como fonte de inspiração para todas nós.

A Helô, nossa colaboradora que fala sobre decoração, é uma mulher que aboliu a maquiagem e vive muito bem, obrigada.

Maquiagem, como qualquer outra coisa, deve ser uma escolha. Assim como qualquer outra coisa, a gente usa maquiagem por opção. Pode parecer besteira esclarecer isso, afinal, ninguém jamais obrigou alguém a usar maquiagem, certo? Hummm…. não é bem assim. Eu, por exemplo, fui obrigada a usar maquiagem no meu primeiro emprego, como atendente de aeroporto. Tinha que estar sempre com sombra, batom, blush, rímel (isso sem contar o cabelo em coque e o salto alto, mas um protesto feminista por vez!). Eu tinha apenas 18 anos, e ali já fui bombardeada de machismos. Outro exemplo: quantas vezes vemos fotos de mulheres famosas sem maquiagem que são execradas por cometerem o horror de sair de casa de cara lavada? Como elas tem coragem de mostrar pro mundo suas olheiras, suas rugas, suas sardas, seus cílios finos? Por isso que eu acho que por trás da escolha há muita influência da mídia e da indústria beleza. Eu tenho plena consciência de muitas mulheres sentem-se empoderadas ao usar maquiagem, e jamais as criticaria. Assim como jamais criticaria mulheres que posam nuas, pois o problema não é a gente sucumbir as exigências da sociedade patriarcal, e sim a existência de tais exigências. O nosso empoderamento está onde queremos, cabe a nós utilizarmos as ferramentas (sejam pincéis de maquiagem ou lencinhos removedores!) a nosso favor! – Helô Righetto/Londres

No time das mulheres que usam o mínimo necessário, está a Carla Caldas do Blog Longe e Perto. Ela conta que é vaidosa e não abre mão de um batom vermelho.

Sempre tive uma relação muito simples com a maquiagem. Cresci carioca de cara lavada, a combinação maquiagem e praia nunca fez muito sentido pra mim. Porém, sempre gostei de batom vermelho, sentia que dava um destaque ainda maior ao meu sorriso e a minha boca já enorme. Com a idade, a mágica dos corretivos e dos BB Creams se mostrou uma boa aliada para levantar o astral, escondendo as manchas indesejadas. Hoje em dia tenho um pequeno kit: BB cream, corretivo, rímel, blush e batom que uso sem o compromisso da frequência. Poucos eventos já me fizeram buscar ajuda de um profissional para uma produção mais elaborada, porém 100% das vezes acabei retocando e tirando os excessos. Enfim, sou, desde sempre, da turma do rosto mais limpo mas não abro mão do batom vermelho e dos corretivos. Acredito que maquiagem é uma aliada da vaidade nossa de cada dia. – Carla Caldas/Blog Longe e Perto

Ainda temos o depoimento da nossa especialista em drinks e atitude, a Chris Menezes.

Eu amo make. Já investi e gastei muita grana comprando itens caros ou baratos, mas nem sempre tenho saco e paciência pra me montar ou produzir.
Como tenho melasma, eu tento usar, pelo menos, um BB Cream (que, convenhamos, foi uma santa invenção da cosmética moderna) para andar por aí com um mínimo de dignidade.
Respeito a decisão da Alicia Keys, mas meu sonho era mesmo acordar todo dia com a cara da Kim Kardashian. – Chris Menezes

E, para finalizar, a responsável por toda esta reflexão.

Eu não sou contra maquiagem. Acho que me deixa bonita quando eu consigo fazer direito. A minha questão pessoal com a maquiagem é que eu acredito que a nossa pele, assim como qualquer outro órgão do nosso corpo, tem que estar saudável. E a gente não corrige problemas como espinhas, manchas, ressecamento… os escondendo atrás da maquiagem, a gente corrige tratando. Eu ainda não consigo ser tão desprendida como a Alicia e não sei se um dia vou ser. Mas a reflexão que eu gostaria de trazer é de gostarmos de nós do jeito que somos sem sermos escravos do espelho. – Alline da Costa

Infelizmente o mundo vem andando na direção oposta do que acreditamos ser o ideal. Nos últimos anos pipocaram milhares de canais no Youtube com blogueiras famosas e seus tutoriais de maquiagem. E quem lucra com isso? Única e exclusivamente a indústria de cosméticos que fatura cada vez mais com as vendas de produtos que muitas vezes não passam de um engodo.
Muitas mulheres não se satisfazem com os recursos e efeitos mágicos dos cosméticos e partem para o extremo de uma (ou várias) cirurgias plásticas. Tudo em busca de um corpo perfeito. Mas o que é ser perfeito?

Acreditamos que a perfeição está dentro de cada um. Está em aceitar-se, em saber que você pode ser bonita e sexy mesmo usando uns jeans tamanho 46. Que o tamanho do seu sutiã não é sinônimo de uma vida amorosa perfeita. Perfeição é saber que ninguém acorda com o cabelo de capa de revista e ter ciência que para ter aquele cabelo você tem que deixar de passar no mínimo meia hora a mais com o seu filho, ou deixando de lado um livro interessante. Ser escrava da beleza é privar-se de muitas outras coisas.

Use maquiagem, faça exercício físico, cuide da alimentação, mas sempre respeitando o seu corpo e a sua mente. Não seja escrava de uma sociedade que nos bombardeia com imposições que visam apenas à lucratividade de um comércio bilionário.

Foto: Alicia Keys, ensaio para a revista Fault (Foto: Zoltan Tombor)