As duas faces de janeiro: crônica

Por Lu Moreda

Estou há algumas horas de acompanhar meu marido na clínica em que ele fará um espermograma.

A semana foi sem sexo, um dos requisitos do exame, com assaltos frequentes à geladeira e confesso que usei por diversas vezes o álibi fácil do inverno europeu para me esquivar do banho, dormir durante muitas horas ao longo do dia e culpar o meu desânimo.

Sem dúvida, começar o ano encarando a verdade e a real possibilidade de eu não poder ter filhos biológicos, não é fácil. Diga-me lá, quem foi o infeliz que disse que janeiro é um mês fácil?

Eu tô pra ver mês mais covarde!

Foto: Barbara Dziadosz
Foto: Barbara Dziadosz

Explico.

Janeiro chega vestido de branco, açucarado, com brilhos nos olhos, borbulhas na ponta da língua e muitas promessas. Janeiro vem perfumado, com sorriso largo e gosto de paraíso. Inspirado no Deus romano de duas faces, Jano, Janeiro seduz com a renovação da esperança e devora com o conflito da escolha. E é nessa luta desleal entre as escolhas do passado e futuro que nós damos início a mais um ano.

Por favor, não me venha dizer: “relaxa que o filho vem!”. A não ser que queira me ver torcer o bico ou bufar em público. Sim, eu já perdi a paciência, a compostura e às vezes a educação para palpiteiros de plantão. Queridos leitores, exercitemos a generosidade. Por incrível que pareça, engravidar não é tão fácil e assim como eu, tem um bando de casais por esse mundão afora na tentativa sem sucesso.

Somos muitos trintões, trintonas e quaretinhas por aí, que investiram tudo na vida profissional porque foram criados com o slogan da mulher independente e da vida planejada, e quando perceberam: o tempo passou e a fertilidade diminuiu.

Foto: Barbara Dziadosz
Foto: Barbara Dziadosz

No meu caso, além dos fatores tempo e hormônios, eu sofri algumas intervenções cirúrgicas na região abdominal, as quais, possivelmente, culminaram em aderência nas trompas. Traduzindo: trompa entupida. Óvulo e esperma não se encontram.

Esse desencontro mensal, me fez viver uma crescente ginástica psicológica, a qual resolvi por um fim agora. Porque ter esperança a cada trepada, dói demais.

Bem, chegou a hora de levantar dessa cama, sacudir o desanimo, o coração muitas vezes partido pelo vazio da maternidade e encarar a verdade que 2017 reservou para mim.

Seja qual for, eu não perderei as esperanças.

Desistir? Pelo contrário! Afinal, Jano, o Deus romano das mudanças e transições, traz uma face linda e jovem voltada para o futuro. E no futuro, eu vejo onze meses de fé, coragem e amor.

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