Ele não é a babá: crônica

Por Lu Moreda

Há poucos dias celebramos o dia internacional da mulher.

Calma! Este não é mais um texto sobre nossas conquistas.

Hoje o nosso bate-papo é sobre um videozinho que a internet morreu de rir recentemente.

Trata-se da entrevista do professor Robert Kelly dada à BBC, sobre a situação política na Coréia do Sul. Alguém lembra dele? Possivelmente não. Sobre o que ele ia falar? Complicado.

Entretanto, acho que você lembra de uma mãe, arrastando duas pequenas fofuras para fora do escritório, enquanto o pai concedia uma entrevista ao vivo.

(Re)Veja

O desespero da mulher foi tanto que uma das reações na internet foi associá-la como a babá dos bebês. Lógico! Eu e outros muitos, genuinamente deduzimos que o descontrole só poderia ter como gatilho: o medo de perder o emprego.

Definitivamente, não vou entrar na questão do casamento multi-racial, quando toda a essência desta grande trapalhada está no MACHISMO.

Pensem comigo:
  1. Se o cara trabalha de casa: tranque a porta do escritório! Porque merdas acontecem.
  2. Se o cara trabalha de casa e tem um “ao vivo” numa das mais respeitadas emissoras de TV do mundo: tranque a porta do escritório e vista uma calça para poder levantar, se for o caso. Porque merdas acontecem.
  3. Se o cara trabalha de casa, tem um “ao vivo” e os filhos que estão em casa resolvem invadir o escritório: tranque a porta do escritório ou vista uma calça, assuma a paternidade como algo normal e coloque sua filha no colo até algum tipo de ajuda chegar. Porque merdas acontecem.
Como pode, depois de uma sequência de erros a piada ser a mãe?

Em nenhum momento, este homem foi questionado pelo descuido com seu trabalho. Haveria essa tolerância se fosse uma correspondente mulher? Em nenhum momento, a apropriação da paternidade desse homem foi questionada. Haveria essa tolerância se fosse uma mãe a afastar o filho?

Prepare-se, agora vem a bomba!

Quando eu digo “apropriação da paternidade”, eu quero compartilhar o conceito de “tornar do pai algo que ele acha ser exclusivamente da mãe”.

A paternidade pode ser biológica, jurídica ou sócio-afetiva. Quando eu trago o termo de apropriação da paternidade para cá é simplesmente mostrar que um homem plenamente consciente de seu estado como pai e de todas as suas funções neste vasto âmbito, encararia essa invasão de fofura, com a maior naturalidade do mundo, mesmo sendo um ao vivo, na BBC.

Sabem por quê? Porque só conseguimos tratar algo com naturalidade se genuinamente for um costume.

Numa sociedade feminista, onde a apropriação da paternidade é cotidiana, este desconforto que acabamos de ver, não existe. Pois, TODOS – empregados e empregadores, homens e mulheres, pais e mães – entendem que a responsabilidade sócio-afetiva dos filhos é compartilhada igualmente pelos responsáveis legais e biológicos.

Apenas para esclarecer, eu não questiono aqui o amor de pai. Eu questiono que os pais amam seus filhos, mas não assumem por completo as tarefas diárias e até alguns embaraços da função. E nós, mulheres, muitas vezes concordamos com isso, pois ainda achamos que cuidaremos melhor ou zilhões de outras justificativas que ao longo dessa sociedade machista nos foram injetadas mentalmente e que ainda acreditamos.

Acredite, por incrível que pareça, o feminismo ainda é uma novidade para muitos de nós.

E aí, você ainda acha o vídeo engraçado?

Viagem só com os amigos? E os filhos?

Por Raphaella Perlingeiro

Se pudesse dar um grande conselho sobre viagens diria: nunca deixe de viajar com seus grandes amigos. Faça isso ao menos uma vez, pois este é um dos melhores um investimento que fará na sua vida.

Será uma oportunidade para sair da rotina e estreitar os “laços de afeto” com pessoas que escolheu para te acompanhar e para compartilhar a sua vida. A viagem desafia e reafirma amizades. A gente chora, ri, confessa e faz do outro um estranho espelho para pensarmos sobre nós mesmos. É uma maravilha!

Por isso insisto, viajar com amigos é diferente de viajar com família ou com marido/esposa. Todos esses companheiros de viagem são ótimos, mas existe (ouso dizer) algo de fundamental para nossa identidade mais profunda que só uma viagem com amigos é capaz de oferecer.

Coletivo_tropical_viagem_amizade
Foto: Raphaella Perlingeiro

No meu caso, posso dizer que, em particular, esse tipo de viagem faz parte de minha sanidade mental. Já como parte de um grupo, “o quarteto” – pode acreditar nós temos até um codenome -, essas viagens servem quase como “bodas de amizade”. Como disse antes, é um momento para reavivar os laços de afeto. A regra é única: apenas nós quatro.

Agora, o que fazer quando este hábito está solidificado em nossa rotina e os filhos chegam?

Nos primeiros anos de vida, filhos demandam uma atenção especial e, aos poucos, a família se torna uma prioridade cada vez maior.

Com o tempo, no entanto, o inevitável acontece. É chegada a hora daquela saudade do quarteto viajando. Bate uma vontade de reviver aqueles parcos momentos de exceção em que é permito ser você sem filhos, sem trabalho, sem família e, principalmente, sem culpa.

No entanto, logo ali na esquina dos seus pensamentos, aparece o seu superego dizendo: “seja adulta e responsável; priorize sua família; priorize os filhos! Isso não é mais viável. Aceite!” Seu objetivo passa a ser então encontrar alguma saída para não desaparecer nessa contradição.

Minha solução é: não abra mão de viajar só com seus amigos! Em especial para as mulheres, repito: não abram mão dessa experiência.

Obviamente, isso não será o mais fácil ou mesmo o mais louvável. Pode contar que você sofrerá críticas por parte das pessoas mais inesperadas. Mas esteja certa de que, caso deixe totalmente de lado esses momentos, seja em função do que for, um aspecto fundamental da sua identidade ficará desguardado e só você sabe a importância que isso tem na sua vida.

No mais, deixo aqui algo que aprendi com uma de minhas amigas na última viagem. Ela me disse: para viver bem é preciso saber como equilibrar pratos. Um para a profissão; um para os amores; outro para as amizades e assim vamos.

O que fazer se a maternidade/paternidade te arrebatou?

Apenas esteja consciente de que um novo prato apareceu em suas mãos. Com o tempo aprende-se a sustentá-lo junto aos outros.

Mesmo que ainda esteja se sentindo como uma “bêbada equilibrista” (alguém aqui lembra da música?), faça irreverências mil e lembre-se: o que nos define não é tanto o que ou o quanto sustentamos em nossas mãos, mas o como fazemos isso.

Para todos os quartetos. 😉