Um lugar à janela de Lisboa

Um conto por Lu Moreda

Eu estava de férias com outros colegas de minha idade, alguns com mais acessórios para a locomoção do que eu. Havíamos chegado a Lisboa há dois dias e hoje, embarcávamos todos para uma excursão ao Santuário de Fátima. A ansiedade das mulheres era tanta que a fila para a entrada no ônibus iniciou 20 minutos antes do horário combinado.

Enquanto parte do grupo fumava, após o café da manhã, eu aproveitei para entrar na fila e conseguir um lugar a janela.

Verdade seja dita, conseguir sentar à janela é uma das poucas vantagens de ser ex-fumante em excursão. Eu não me lembrava há quanto tempo eu havia parado de fumar . Nunca gostei de contar esse tempo, por ser um tempo de privação ao meu prazer.

Por favor, não me julgue. Sou de uma outra época… daquela que Coca-Cola cura dor de barriga e Marlboro desperta poder e sedução. Como eu seduzi… Agora, o que me resta é aproveitar a minha pensão viajando com pessoas que não conheço e recontar a minha história da forma que eu bem quiser.

Pronto! Entrei. Que lado que eu escolho? Direita, esquerda, direita, esquerda… Bem, vou de esquerda porque eu sempre me identifiquei mais nessa corrente. Assento escolhido e na janela. Espero que este lado tenha a melhor vista durante a viagem. Quero ver muitos campos de oliveira. Lembro de tê-las visto 20 anos atrás… Mas acho que ainda consigo reconhecê-las.

Outro dia contei a um amigo sobre a viagem que fiz a Amsterdão e minha frustração de sentar do lado errado no barquinho, aquele que faz uma voltinha na cidade pelos canais. Sabe o que é TUDO acontecer do lado oposto ao que eu estava sentada? Pois. Todos os monumentos, ruas importantes, projetos arquitetônicos inovadores eram do lado esquerdo. E eu estava onde? No direito! Não consegui tirar uma foto sem um bando de cabeças na frente.

Eu sinto que dessa vez eu escolhi bem. Aqui terei a vista privilegiada e verei os lindos campos de oliveira na estrada.

Ah, que meninas bonitinhas! Parecem grandes amigas. Estão se despedindo.  Nossa, que cabelo lindo! Acho tão elegante mulher de cabelo curto, sempre achei. E o cabelo dela é volumoso, em diferentes tons de loiro, lhe cai tão bem… Tenho certeza, se Nádia fosse viva, também elogiaria. Capaz até dela cortar igual.

Nádia sempre me surpreendeu.

Já na infância trocou as madeixas longas por sua nuca  à mostra. Dispensou todas as saias pela praticidade das calças curtas.

Ela gostava de inventar moda e, para isso, usava as roupas de toda a família. Ninguém passava incólume. Seus pais e irmãos sofriam com aquele excesso de criatividade. Todavia, por mais íntimas que fôssemos, ela nunca teve coragem de pedir a mim ou à mamãe qualquer peça de nosso armário.

Nádia era impossível.

Volta e meia, Nádia aparecia em nossa casa chorando. Mamãe para acalmar seus soluços oriundos das palmadas que havia levado do pai, por ter “destruído mais uma peça dos armários de sua família, fazia bolinhos de chuva para ela.

Não pense que ela parava. Nádia era mais determinada que a teimosia. Sua audácia, bom gosto e liberdade faziam dela uma mulher de cabelos curtos linda.

Um dia, se não me falha a memória, no ano que Nádia completou 17 anos, ela apareceu no portão de casa chorando. Na mesma hora, gritei pela mamãe. Era hora de fazer os bolinhos de chuva. Possivelmente, ela havia confeccionado algum modelito com a roupa alheia.

Ainda no jardim, percebi que nunca havia visto aquela expressão em seu rosto. Diminuí o passo ao seu encontro e tentei buscar algum detalhe diferente antes de chegar ao portão.

Ela vestia sua camiseta listrada preferida, a calça de alfaiataria, customizada com as barras dobradas, do irmão caçula, o seu colar com a aliança da avó pendente e um relógio largo em seu pulso esquerdo.

Lembro de não precisar perguntar o que o relógio do pai fazia em seu pulso. Eu abri o portão e seu abraço angustiado respondeu.

O pai de Nádia falecera naquele fim de tarde.

Minha mãe completamente comovida, após saber que o contabilista do bairro faleceu de um mal súbito no coração, pegou Nádia pelas mãos e a levou para seu quarto. Ela pediu que nós sentássemos em sua cama.

Mamãe sem emitir uma palavra, conseguiu ser mais doce que seus bolinhos de chuva. Ela levantou o rosto cabisbaixo de Nádia e abriu as portas de seu guarda roupa. Com a delicadeza de sempre, mamãe ficou na ponta dos pés, esticou os braços,  pegou a caixa vermelha quadrada que estava na parte superior de seu armário e colocou sobre a cama. Ela tirou a tampa, o papel de seda e levantou o vestido acinturado, azul real de tafetá, que usou na missa dos meus 15 anos.

“Nádia, faça algo deslumbrante para você” – mamãe falou.

E, é claro que ela fez. Passado um tempo futuro, ela o fez e refez. Até o dia que ela nunca mais o desfez.

Talvez o único traço que ela jamais quis mudar ao longo dos seus 62 anos, foi o seu cabelo curto e aquele tempo, há anos congelado, do relógio herdado de seu pai.

Que bom que eu sentei na janela a tempo para continuar com ela viva em meu coração.

continua…

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Um comentário em “Um lugar à janela de Lisboa

  1. Não sei se estou mais curiosa (o que seria natural de uma geminiana) ou se estou emocionada, so sei dizer que este conto provocou sentimentos em mim.

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