Caçadora de Leões

Por Chris Menezes

Foto: Florida Memory State Library
Foto: Florida Memory State Library

De todos os insultos que ouvi ao longo da minha vida – e não foram poucos – esse certamente foi o que calou mais fundo. Sim, já escutei muito absurdo nessas minhas 47 primaveras por parte de colegas de trabalho e machinhos “empoderados”.  Pois é. Muito fácil pegar a menina e sair contando pra todo mundo. Mais fácil ainda, não pegar – porque ela não quis – e resolver inventar apelidos engraçadinhos para, claro, desqualificá-la.

É, minha gente, isso foi a história da minha vida durante um bom tempo. Tempo que eu era gostosinha e bem fogosa, tinha sede e pressa de curtir a vida. Saí com quase todo mundo que eu quis e estava nem aí pro que fulano ou beltrano iam dizer. Até a hora em que chegava ao meu ouvido.

Doía? Sim, com certeza. Mas eu não podia evitar. E, muito menos, ia deixar de viver minha vida.

E o caçadora de leões? De onde surgiu?

Sou publicitária e tive casos e ficadas com meninos do mercado e cheguei a casar com um redator. Por acaso, alguns desses caras conquistaram Leões de Cannes (considerados o maior prêmio da propaganda mundial). Só que, minhas caras, eu não fiquei com nenhum deles por conta de uma estatueta nem tava interessada em dar um golpe do Leão em ninguém (e se estivesse, ninguém tinha nada a ver com isso, by the way). Fiquei porque eram gostosos, bonitos, interessantes ou tão safados quanto eu. Só que um cabloco todo trabalhado no recalque resolveu me dar esse apelido tão querido e meigo. Aparentemente, o moço estava com tempo livre suficiente para fazer uma timeline da minha vida sexual.

Como é o nome disso? Misoginia? Frustração? Recalque?

Brochismo (acabei de inventar a palavra e achei perfeita pra situação)? A mim, não importam as motivações de meia dúzia de idiotas. O que me importa e choca é que as pessoas percam tempo em tomar conta da perereca alheia.

Então, cês me desculpem a ironia, mas que pussy poderosa essa minha, hein?!

Mais do que um desabafo pessoal sobre um tempo que há muito ficou pra trás, esse post é uma reflexão sobre essa mania masculina de rotular e diminuir o sexo oposto, transformando tudo numa piada sem graça em looping. Ora bolas, eu fiquei com muitos publicitários por ser uma delas. Frequentávamos as mesmas festas, andávamos com as mesmas pessoas, os chopps e churrascos eram extensão natural da jornada de trabalho. Normal, as pessoas se azararem, se encantarem e se pegarem. Mas por que isso me reduz a um apelido depreciativo?

Cadê o apelido daquele menino que enche a cara e sai dando em cima de cada menina até lograr êxito em algum momento? Por que a ele não é dispensada a mesma ironia maldosa? E mais: quem foi que determinou a quantidade aceitável de peguetes para não ser taxada de galinha, piranha ou caçadora de xyz?

Eu passei por tudo isso, digeri, superei e, hoje, dou risada. Mas sei que, nesse exato momento, tem uma menina chorando escondido por estar sofrendo com esse tipo de “gracinha”.

Até quando? Pelo amor de Deus, já passou da hora de respeitarmos verdadeiramente as escolhas individuais alheias, sem hipocrisia e, principalmente, sem julgamentos bestas.

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3 comentários em “Caçadora de Leões

  1. É interesse como as pessoas se preocupam com vc se deita, se com homens ou mulheres, se com poucos ou muitos. Estamos no século XXI e ainda vivemos cercados de preconceitos.

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