A maquiagem e a escravidão

Por Mirella Camargo

Foto: Alicia Keys, ensaio para a revista Fault (Foto: Zoltan Tombor)
Foto: Alicia Keys, ensaio para a revista Fault (Foto: Zoltan Tombor)

Na última semana a nossa colaboradora Alline da Costa colocou a cara lavada no Snapchat para falar sobre a imposição do uso da maquiagem. O assunto rendeu. Muitas seguidoras entraram em contato conosco e resolvemos falar um pouco mais sobre o assunto que pode ser um inferno para uns e um paraíso para outros.

Recentemente a cantora Alicia Keys foi a um evento sem maquiagem e deu no que falar, inclusive aqui no Coletivo. Nosso time é a favor da liberdade, do direito de sair na rua com a cara que você nasceu sem precisar usar mil artifícios para esconder o que deveria ser chamado de beleza natural. A questão vai muito além do uso da maquiagem e engloba todas as pressões que sofremos em relação ao nosso corpo, nossa linguagem e nossa aparência. Aprendemos e somos expostas a uma mídia que diz o tempo todo que para a mulher ser bonita e desejada tem que ser magra, usar maquiagem, roupas caras, não pode falar palavrão, entre outras coisas.

Nós admiramos mulheres que se aceitam, que usam maquiagem quando querem e se sentem bem com isso sem se tornarem escravas deste artifício. Mulheres que não precisam ter o corpo da blogueira fitness para se acharem lindas e interessantes. Mulheres reais, que batalham, conquistam o seu espaço e servem como fonte de inspiração para todas nós.

A Helô, nossa colaboradora que fala sobre decoração, é uma mulher que aboliu a maquiagem e vive muito bem, obrigada.

Maquiagem, como qualquer outra coisa, deve ser uma escolha. Assim como qualquer outra coisa, a gente usa maquiagem por opção. Pode parecer besteira esclarecer isso, afinal, ninguém jamais obrigou alguém a usar maquiagem, certo? Hummm…. não é bem assim. Eu, por exemplo, fui obrigada a usar maquiagem no meu primeiro emprego, como atendente de aeroporto. Tinha que estar sempre com sombra, batom, blush, rímel (isso sem contar o cabelo em coque e o salto alto, mas um protesto feminista por vez!). Eu tinha apenas 18 anos, e ali já fui bombardeada de machismos. Outro exemplo: quantas vezes vemos fotos de mulheres famosas sem maquiagem que são execradas por cometerem o horror de sair de casa de cara lavada? Como elas tem coragem de mostrar pro mundo suas olheiras, suas rugas, suas sardas, seus cílios finos? Por isso que eu acho que por trás da escolha há muita influência da mídia e da indústria beleza. Eu tenho plena consciência de muitas mulheres sentem-se empoderadas ao usar maquiagem, e jamais as criticaria. Assim como jamais criticaria mulheres que posam nuas, pois o problema não é a gente sucumbir as exigências da sociedade patriarcal, e sim a existência de tais exigências. O nosso empoderamento está onde queremos, cabe a nós utilizarmos as ferramentas (sejam pincéis de maquiagem ou lencinhos removedores!) a nosso favor! – Helô Righetto/Londres

No time das mulheres que usam o mínimo necessário, está a Carla Caldas do Blog Longe e Perto. Ela conta que é vaidosa e não abre mão de um batom vermelho.

Sempre tive uma relação muito simples com a maquiagem. Cresci carioca de cara lavada, a combinação maquiagem e praia nunca fez muito sentido pra mim. Porém, sempre gostei de batom vermelho, sentia que dava um destaque ainda maior ao meu sorriso e a minha boca já enorme. Com a idade, a mágica dos corretivos e dos BB Creams se mostrou uma boa aliada para levantar o astral, escondendo as manchas indesejadas. Hoje em dia tenho um pequeno kit: BB cream, corretivo, rímel, blush e batom que uso sem o compromisso da frequência. Poucos eventos já me fizeram buscar ajuda de um profissional para uma produção mais elaborada, porém 100% das vezes acabei retocando e tirando os excessos. Enfim, sou, desde sempre, da turma do rosto mais limpo mas não abro mão do batom vermelho e dos corretivos. Acredito que maquiagem é uma aliada da vaidade nossa de cada dia. – Carla Caldas/Blog Longe e Perto

Ainda temos o depoimento da nossa especialista em drinks e atitude, a Chris Menezes.

Eu amo make. Já investi e gastei muita grana comprando itens caros ou baratos, mas nem sempre tenho saco e paciência pra me montar ou produzir.
Como tenho melasma, eu tento usar, pelo menos, um BB Cream (que, convenhamos, foi uma santa invenção da cosmética moderna) para andar por aí com um mínimo de dignidade.
Respeito a decisão da Alicia Keys, mas meu sonho era mesmo acordar todo dia com a cara da Kim Kardashian. – Chris Menezes

E, para finalizar, a responsável por toda esta reflexão.

Eu não sou contra maquiagem. Acho que me deixa bonita quando eu consigo fazer direito. A minha questão pessoal com a maquiagem é que eu acredito que a nossa pele, assim como qualquer outro órgão do nosso corpo, tem que estar saudável. E a gente não corrige problemas como espinhas, manchas, ressecamento… os escondendo atrás da maquiagem, a gente corrige tratando. Eu ainda não consigo ser tão desprendida como a Alicia e não sei se um dia vou ser. Mas a reflexão que eu gostaria de trazer é de gostarmos de nós do jeito que somos sem sermos escravos do espelho. – Alline da Costa

Infelizmente o mundo vem andando na direção oposta do que acreditamos ser o ideal. Nos últimos anos pipocaram milhares de canais no Youtube com blogueiras famosas e seus tutoriais de maquiagem. E quem lucra com isso? Única e exclusivamente a indústria de cosméticos que fatura cada vez mais com as vendas de produtos que muitas vezes não passam de um engodo.
Muitas mulheres não se satisfazem com os recursos e efeitos mágicos dos cosméticos e partem para o extremo de uma (ou várias) cirurgias plásticas. Tudo em busca de um corpo perfeito. Mas o que é ser perfeito?

Acreditamos que a perfeição está dentro de cada um. Está em aceitar-se, em saber que você pode ser bonita e sexy mesmo usando uns jeans tamanho 46. Que o tamanho do seu sutiã não é sinônimo de uma vida amorosa perfeita. Perfeição é saber que ninguém acorda com o cabelo de capa de revista e ter ciência que para ter aquele cabelo você tem que deixar de passar no mínimo meia hora a mais com o seu filho, ou deixando de lado um livro interessante. Ser escrava da beleza é privar-se de muitas outras coisas.

Use maquiagem, faça exercício físico, cuide da alimentação, mas sempre respeitando o seu corpo e a sua mente. Não seja escrava de uma sociedade que nos bombardeia com imposições que visam apenas à lucratividade de um comércio bilionário.

Foto: Alicia Keys, ensaio para a revista Fault (Foto: Zoltan Tombor)

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